Rock de garagem vai ao palco (1988)

Vai bater nervoso, mas Os Filhos do Progresso e Plebiscito, dois grupos de rock e punk formados por garotos de São José com idade entre 14 e 18 anos, prometem que será apenas nas primeiras músicas. É que eles estão estreando hoje no palco, mas mamãe e papai vão dar uma força.

O espaço foi conquistado depois de ficarem quatro meses na lista de espera. Mas a demora valeu. Os Filhos do Progresso e Plebiscito, dois grupos de rock de São José dos Campos formados por uma moçada “radical” com idades de 14 a 18 anos, vão pisar hoje pela primeira vez num palco às 21 horas no do Cine Teatro, para apresentarem as suas músicas. “Vai bater nervoso só até a primeira, a segunda, talvez a terceira ou quarta música” brinca Marco Antônio, 19 anos, baixista e vocalista do Os Filhos do Progresso. “Mas depois que a gente esquentar, aí tudo bem”.

Irreverentes, eles garantem que pelo menos a família e os amigos de cada componente estarão ocupando algumas cadeiras do Cine Teatro com capacidade para abrigar um público de aproximadamente 400 pessoas.

Acostumados a participarem raramente de alguns festivais ou tocarem na Praça da Cultura (Afonso Pena), eles estão empolgados com o show. Esse espaço caiu do céu. Afinal, Os Filhos do Progresso e o Plebiscito geralmente não encontram muitas oportunidades para tocarem nos barzinhos da cidade que exigem que os conjuntos sigam um repertório de MPB e eles não abrem mão do seu próprio som ou do rock. As dificuldades aumentam ainda mais para o pessoal do Plebiscito que forma uma banda de punk. “Existe um preconceito contra os grupos de punks. Acham que nós somos arruaceiros, andamos quebrando tudo por aí e não é nada disso. Punk não tem nada a ver com violência. Somos contra a alienação e nossa música é de protesto, explica Preguiça, 17 anos, um dos integrantes. Tirando o preconceito, os integrantes admitem, no entanto, que o som deles não é o ideal para rolar como música ambiente num lugar onde as pessoas se encontram para conversar. “É, aí não dá certo. Acho que o pessoal não conseguiria conversar, mas em compensação iria curtir o nosso som”, analisa sem falsa modéstia.

Sem poder contar muito com os bares da cidade e com produção de shows, os grupos reclamam da falta de espaço. “Em São Paulo além dos bares, os grupos que estão começando e são independentes e têm a oportunidade de tocar em festivais ou shows promovidos por escolas”, explica Marco Antônio. Em São José, as duas bandas vêm enfrentando problemas até para conquistar um lugar para os ensaios. Depois de ser despejada de um quartinho por causa do “barulho”, a turma do Plebiscito arma o seu acampamento com guitarra, caixas, amplificadores e bateria todos os finais de semana em plena sala de visita da casa do Preguiça. “Até agora os vizinhos não reclamaram e a minha família não se incomoda. Eles dão o maior apoio”, conta.

Os Filhos do Progresso não estão tendo a mesma sorte. Os ensaios são feitos na casa do Marco Antônio, mas já algum tempo a vizinhança começou a reclamar do barulho. “Minha mãe ouve reclamações todos os dias, mas por lei nós temos direito de tocar até às 22 horas”, explica Marco Antônio que procura defender o direito do grupo de ensaiar, amparando-se na lei. Os Filhos do Progresso já são conhecidos como “a moçada do até as 10” porque até esse horário eles espalham os seus acordes, mas depois cedem às pressões da vizinhança.

Mistura de tudo

Os Filhos do Progresso é formado por Marco Antônio (baixo e vocal), Gerson Rodolfo, 16 anos (guitarra), e Fernando 19 anos, (bateria e percussão).

O grupo foi criado pelo baterista Marcelo, irmão de um dos integrantes do Plebiscito, hoje tocando na banda punk Sub-Detritos. Da formação inicial não sobrou ninguém. Os atuais integrantes herdaram o nome do conjunto, mas estão à procura da sua própria identidade. “Nosso som está meio confuso. É uma mistura de tudo. Não dá para definir, mas tocamos rock e fazemos música de protesto. Estamos passando por uma transição” explica Marco Antônio sob a aprovação de Gerson. Mas Os Filhos do Progresso sabem identificar os grupos que influenciam o som deles: Legião Urbana, Ira e Titãs.

O Plebiscito também já mudou muito, característica comum aos grupos de rock em início de batalha que ensaiam nas garagens e quartinhos da casa de um dos componentes. “Acho que é coisa de gente

jovem. As ideias estão sempre passando a mil”, arrisca uma análise Marco Antônio. “E também porque as bandas têm pouca aparelhagem e dinheiro para investir nas gravações. Fazem muitos ensaios, mas não encontram espaço para tocar. O pessoal acaba ficando sem perspectiva e desanima”, diagnostica o Preguiça.

Três componentes do Plebiscito são conhecidos pelos apelidos. Atualmente é formado pelo Preguiça, 17 anos, (baixo e voz), André 18 anos, o único que ainda não ganhou um “nome artístico”, Porcão, 14 anos, irmão do primeiro integrante (guitarra) e o Menor, de 15 anos (bateria).

Som nacional

Os integrantes do Plebiscito se definem como “radicais”. Só curtem e ouvem som nacional e, de preferência, punk como as músicas do Cólera, Dose Brutal e Vírus 27, grupos independentes de São Paulo. “Temos que dar valor ao que é brasileiro e não a qualquer conjunto que vem de fora e fatura a maior grana”, protesta Preguiça. Os Filhos do Progresso pensam da mesma forma. “O Brasil precisa ser mais brasileiro. Precisa dar mais valor ao que é produzido aqui”, comenta Marco Antônio.

Os componentes das duas bandas também são radicalmente contra as músicas comerciais, o esquema das gravadoras que mexem no estilo de música dos conjuntos para torná-los mais vendáveis, e das FM’s.

Detesto tudo que toca no rádio, com uma exceção para o Legião Urbana. FM é sinônimo de comércio”, critica Preguiça.

Menos radical, Marco Antônio diz que não gosta, mas acha importante que cada um tenha espaço para expressar e produzir a música que quiser. “O importante é fazer um som sincero, e não uma coisa só para ser consumida. Se o cara está fazendo a música que ele gosta, tudo bem, contanto que seja sincera”, analisa.

Nas músicas do Os Filhos do Progresso e Plebiscito o que rola de legítimo, segundo eles, são as letras de protesto que falam de política, violência, preconceito, desigualdade, comportamento humano, egoísmo bem dentro da filosofia punk ou do estilo do Legião Urbana. “Nossa música procura passar uma mensagem, como a do Legião, que pergunta que País é esse”, fala Marco Antônio.

E que País é esse para um grupo de jovens que acha “válido estudar, apesar do nível de ensino nas escolas para não ser um brasileiro normal que não sabe pensar. Ou que são a favor dos jovens de 16 anos terem os seus títulos de eleitor ao mesmo tempo em que perguntam: votar em quem?

É o País dos marajás”, opina Marco Antônio. “Dos ricos“, acusa Gerson. “O País da desordem”,

esculhamba Preguiça com a total aprovação do Plebiscito.

Dividindo o tempo que dispõem com a escola, os ensaios e o trabalho dos sete, apenas o Fernando que está servindo o Exército e o Menor que está desempregado não estão trabalhando, os componentes do Os Filhos do Progresso e Plebiscito traçam planos para o futuro dos grupos. Mas são projetos “dentro da real”, nada de alienação. O primeiro objetivo é conseguir gravar algumas músicas num estúdio. “Não dá para mostrar o seu som para uma gravadora independente ou em programas de TV, como o Boca Livre, da TV Cultura que abre espaço para grupos novos se apresentarem, sem ter uma gravação decente”, explica Marco Antônio.

Não sou alienado. Penso em lançar um disco numa gravadora independente e ser conhecido por quem curte o som do Plebiscito como ele é, sem transformá-lo para ser consumido por um público maior“, explica Preguiça.

Enquanto as gravações e o disco independente não pintam, os integrantes do Os Filhos do Progresso e Plebiscito lembram que os ingressos para o seu show no Cine Teatro estão à venda nas bilheterias “escreve aí apenas, bem grande, por 50 cruzadinhos”. Os componentes convidam as demais bandas da cidade para assistirem ao show e trocarem ideias no final da apresentação.

Regina Dore Roda
Valeparaibano, 18 de março de 1988

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