Juvenal Machado namorou cinco anos o Fusca 86, um dos últimos fabricados no Brasil. A concessionária Bandeirantes, dona do carro sempre resistiu ao seu assédio. No começo do ano, Juvenal usou um apelo irresistível e comprou o Fusca, cobiçado por colecionadores, e que raramente sai da garagem.

“Nai” tem duas paixões na vida. A primeira tem dois anos e meio e se chama Pedro Henrique. A outra, bem mais antiga, são os carros.
Corretor imobiliário, Juvenal Machado dos Santos, o “Nai”, recorda-se perfeitamente de todos os modelos que já possuiu na vida e foram muitos porque desde criança “Nai” se liga em carros. Atualmente, divide sua paixão entre três modelos um Santana, uma Parati e um Fusca. Todos são impecavelmente cuidados – como se fossem filhos. Lataria em ótimas condições, tudo limpo e funcionando direitinho. “Nai” tem até uma mania: não gosta que coloquem a mão no vidro dos carros. “É que eu gosto deles brilhantes“, explica.
Além de Pedro Henrique, no entanto, um desses carros é o xodó de “Nai”. O Fuscão 86, série especial, zero km. Pra quem não entende do assunto, pode parecer um absurdo um carro de cinco anos que nunca saiu da garagem. Os aficionados sabem que o Fuscão vale ouro.
Em 1986, quando a Volkswagen do Brasil anunciou que deixaria de produzir o Volks, causou um espanto ao público. Mas a fábrica foi generosa e produziu para fechar a linha em grande estilo 80 carros, que foram distribuídos entre os chefes da empresa que tinham mais de 20 anos de casa e um carro para cada concessionária da empresa. Os Volks distribuídos aos funcionários foram pintados de dourado e são conhecidos hoje como série “Chave de Ouго”
Os Fuscas distribuídos às concessionárias foram pintados de prata e cada revenda recebeu a orientação para que o carro não fosse vendido sem uma segunda ordem. Assim, o “Última Série”, como ficou conhecido o Volks da cor prata, número 266/850, ficou praticamente cinco anos guardado na Bandeirantes, em São José dos Campos. Em janeiro deste ano, o dono da Bandeirantes cedeu à pressão e vendeu o Fuscão prateado a Juvenal Machado dos Santos. O preço, ele prefere não revelar.
Herança
Para conseguir o carro, hoje uma verdadeira joia rara, “Nai” usou um argumento infalível, embora bastante verdadeiro.
“Expliquei ao diretor da empresa que o carro era a maior paixão do meu filho“, revela “Nai”. De fato, o menino Pedro Henrique, desde que tinha um ano e dois meses sabe o nome de todas as marcas de carro e gosta dos carros quase tanto quanto seu pai. Dos três modelos da garagem, Pedro Henrique não hesita em afirmar: “O carro que eu mais gosto é o Fusca“.
O carro é uma belezura. Novinho em folha, por dentro é revestido de veludo sintético preto, os vidros são verdes, tem desembaçador traseiro e o número de série está gravado em todos os vidros.
A chapa também foi escolhida especialmente, JE 0086. Motor 1.600, ele vale (só) uns oito milhões.
Pra se ter uma ideia de como este Fusca é cobiçado, “Nai” já rejeitou a proposta de um colecionador que lhe daria, há dois meses atrás, uma Parati zero e mais um milhão de cruzeiros. O detalhe é que o colecionador, também arquiteto, construiu uma casa em Campos do Jordão e projetou uma sala só para colocar o Fusca no centro. Parece demais para um carro que lembra um ovo de galinha, mas é verdade.
Mesmo quem não é colecionador se apaixona pelo carro. No dia que tirou o carro da garagem para lavar e lubrificar, “Nai” percorreu algumas ruas do centro e causou o maior furor. “Todo mundo queria chegar mais perto só pra ver“, contou. E, em poucos minutos, o corretor recebeu umas dez propostas de venda. Recusou todas, mas finalmente resolveu dar uma boa notícia: “Estou pensando em vendê-lo” Note bem: “pensando”. Note porque “Nai” não consegue fazer o que realmente ele tinha em mente quando comprou o carro, que é passear tranquilamente pelas ruas da cidade com seu filho Pedro Henrique, num belo Fuscão.
Por Cristina Valéria
VALE MOTOR – Encarte do Jornal O Valeparaibano de 1991
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